A ESCOLA
DE CINEMA

Ao ver os filmes da escola de cinema das Caldas da Rainha descobri que os alunos se filmavam constantemente a si próprios. Fiquei comovido com a forma como se expunham. Sentia-me perto deles e comecei a perguntar-me sobre o que seriam as suas vidas.

Alguns dos filmes deram-me vontade de conhecer os realizadores. Foi muito frustrante. Uns já não viviam em Portugal. Outros tinham deixado o cinema.

Mas um dia uma pessoa começa a filmar, começa a pensar num filme e está apanhada. Aproximei-me dos realizadores que ainda estavam na escola. E agora já sabia porquê. Queria saber como eram as vidas deles no quotidiano. Tentar perceber qual era a diferença do cinema.

Fiquei muito perto dos alunos. Descobri que eles têm muitas vozes. Não tem só as dos filmes. Espero que isto me aconteça a mim também.

NOTA DE
INTENÇÕES

Um dia vi um filme em que o mundo desaparecia enquanto um rapaz caminhava sozinho. Interessou-me muito pela sua estranheza e espontaneidade, mas sobretudo ao saber que o rapaz que caminhava era a pessoa que o tinha realizado. Era um aluno da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e queria muito que eu visse o seu trabalho enquanto esteve como estagiário na Rosa Filmes. Perguntei-lhe pelos trabalhos dos colegas e fui descobrindo um largo arquivo de filmes com a mesma definição formal radicalmente livre e tematicamente sempre sobre uma solidão que é ou não contornada. São obras especiais, que invariavelmente versam sobre a intimidade dos alunos, filmando-se eles a si próprios. Descobri que estes filmes são um modo privilegiado de acesso pela interioridade às vidas dos jovens contemporâneos, figurando eles coisas da sua vida naquilo que filmam, que não conseguem fazer de outra forma, tocando assim o seu trabalho de forma especial naquilo que é próprio das formas audiovisuais no seu nexo com a vida vivida: a figuração com um referente aderente à própria realidade. Deixa-se assim entrever como elemento de tensão um desequilíbrio na representação, de quem está a viver uma crise entre uma imagem mediática do mundo e de si mesmo, e a urgência dos sentimentos que vem da realidade e que não encontram veiculação, alimentando-os em profundidade como desejo expressivo. O que é que a pessoa está a ver da sua vida? O que é que é ou não verificável do que ela representa de si mesma para os que a rodeiam? Será que vou conseguir ver alguma coisa destes jovens que eles não estão a ver de si próprios? Quando dei por mim, já estava a pensar sobre estas vidas ao ponto de querer ir filmá-las para tentar compreender quem são estes jovens e porque é que se figuram assim. É também meu o desejo de compreender melhor que novos modos de ver são estes, que hoje passam pelos novos modos de filmar e de ser espectador. Fascina-me a possibilidade do choque entre aquilo que vejo de mim e o que alguém vê poder produzir um sentido, uma terceira parte que possa de alguma forma iluminar-nos sobre a realidade contemporânea. Esta é a duma sociedade mediática, que tende para uma expansão que atravessa a própria realidade por dentro, no sentido da sua substituição por uma representação digital, mais real que o real, fragmentária, marcada pela figura do excesso. Em que é que esta relação com os media marca a relação dos jovens consigo próprios e com o que os rodeia? Como alunos duma escola de cinema, dentro dum sistema pedagógico de representação que os leva a expressar-se desta maneira, procuro também a possibilidade de com isto reflectir sobre o papel duma escola de artes no contexto dos problemas das novas gerações, sempre no sentido íntimo do envolvimento do aluno com a criatividade, como a expressão duma própria relação com o sistema democrático. Estamos nas Caldas da Rainha onde ainda existe um mundo pré-mediático que está em tensão com o advento desta nova ordem. Tenho o desejo de filmar este ambiente, caracterizado por uma fractura de valores, expresso não só nos conflitos, mas nos sonhos e aspirações desta geração, entre dois mundos, um novo em afirmação e um antigo a desagregar-se. Qual o papel da escola e da expressão artística dentro deste quadro? Como é que os problemas criativos são condicionados pela realidade que os alunos vivem? Que diferenças no percurso de vida das pessoas lhes permitem ver a realidade duma determinada maneira? Metodologicamente, o filme procura uma metamorfose dos materiais, sendo os filmes dos alunos tornados parte do sentido do filme através do trabalho da estrutura. Procura-se criar sentido através da sua ordenação e ao mesmo tempo filmar as pessoas, procurando uma dinâmica de revelação através de coincidente e discrepante. Um filme em desenvolvimento através destas aberturas, como lugar da justaposição criativa, cinematográfica, entre representações: as dos alunos sobre si próprios, e a minha sobre eles, o seu contexto, e a própria experiência de fazer cinema. Procura-se nesta medida realizar uma filmagem desapaixonada, em direcção à desdramatização, com planos longos, tentando assim criar um sistema de mise-en-scéne que acolhesse a realidade, contrariamente ao plano formal dos seus trabalhos. No fundo, o gesto profundo do cinema contemporâneo, como o de uma linguagem reduzida ao mínimo que possibilita uma atenção ao que é que pode acontecer.

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